Como um choque cultural ajudou a Netflix a disruptar o seu próprio negócio



Em meados dos anos 2000, Reed Hastings apostava que o streaming seria o futuro do mercado de entretenimento. E seu maior receio era exatamente que a Netflix fosse disruptada por alguma outra empresa que dominasse o streaming antes. Decidiu que a própria Netflix iria disruptar o seu vencedor e lucrativo negócio de locação de DVDs.


Agora imagine mudar a forma de pensar o negócio de uma empresa que dominava o mercado e que tinha 100% de suas receitas atreladas ao aluguel de filmes em DVD! imagine fazer isso quando nem existia tecnologia suficiente - afinal, a internet em banda larga como temos hoje ainda vinha sendo ampliada nos EUA e não tinha a velocidade que temos hoje. Um filme poderia levar algumas horas para ser baixado na época.


Imagine a resistência interna para fazer essa transformação acontecer – em especial quando a sua empresa é a líder do mercado.

Reed Hastings no meio de seus DVDs



Estamos falando de apostar as suas fichas na criação de um mercado totalmente novo. Para acelerar a transformação estratégica e cultural da Netflix, Reed Haastings tomou uma decisão radical.


Embora o negócio de DVDs representasse 100% da receita da Netflix na época, ele decidiu tirar do Time Executivo todos os líderes envolvidos na operação de DVDs para que a empresa pudesse pensar exclusivamente no futuro da empresa: o streaming.

Observe que ele não demitiu esses líderes. Afinal, esses Executivos eram fundamentais para sustentar o presente da empresa. Era o grande coração da operação da organização. Mas ele os tirou das reuniões do Time Executivo.


Quem já atuou no mundo corporativo sabe que é nas reuniões do Time Executivo que se tomam as decisões mais importantes para o futuro da empresa. Ou seja: com essa decisão, Reed mostrou para a organização (de uma forma chocante) que o negócio de DVD faria parte do passado e que o Streaming seria o futuro da organização.


Ao mesmo tempo, demonstrou a necessidade de seus Executivos serem os primeiros a buscarem a inovação e, caso necessário, descobrirem formas de disruptar o próprio negócio.


Uma ideia controversa, é claro. Mas é um exemplo do que Ben Horowitz chamou de “Shocking Rules” (regras de choque) em seu livro “You are what you do”. De acordo com Ben, uma regra de choque sinaliza um exemplo concreto que passa a desenvolver e moldar a cultura de uma empresa.


Em seu livro recente, Reed Hastings mostra diversos exemplos que moldaram a Cultura da Netflix. E a maior parte dessas regras têm algo em comum: não ter regras. Férias? Tire quantos dias você achar necessário. Política de Viagens? Aja de acordo com os interesses da Netflix. Tudo para que se desenvolva a já famosa cultura de autonomia e responsabilidade na empresa. Não é à toa que o nome do livro de Reed Hastings (escrito em parceria com Erin Meyer) é "A regra é não ter regras."