5 perguntas sobre o futuro para Gabriel Amâncio, Diretor de Inovação da Unifique

Estamos iniciando uma série de conversas com executivos que estão na linha de frente da transformação das organizações, para entender como a tecnologia está mudando a forma de trabalhar, tomar decisões e gerar resultados.
Nosso primeiro convidado é Gabriel Amâncio, Diretor de Inovação e Transformação Digital da Unifique, uma das principais empresas de telecomunicações do Sul do Brasil.
Sobre a Unifique
Fundada por Fabiano Busnardo em 1997, em Timbó (SC), a Unifique surgiu como um pequeno provedor de internet e, ao longo de quase 30 anos, expandiu seus negócios para áreas como Internet Banda Larga, Telefonia Móvel 5G, serviços digitais e automação.
Acompanho de perto essa trajetória desde 2024, quando começamos a trabalhar com a Direção da empresa na jornada de evolução cultural da empresa.
Em 2025, alcançou um faturamento de R$ 1,185 bilhão.
Em 2026, ficou pela segunda vez consecutiva entre as cinco empresas mais inovadoras do Brasil no setor de telecomunicações, avançando da 108ª para a 75ª posição no ranking geral do Prêmio Valor Inovação Brasil.
Sobre o Gabriel Amâncio, Diretor de Inovação e Transformação da Unifique

Gabriel traz mais de duas décadas de experiência em tecnologia, estratégia e transformação de negócios, incluindo 19 anos na WEG. Desde 2022, lidera na Unifique iniciativas de inovação, inteligência artificial, transformação digital e novos negócios.
Partindo da ideia de que a tecnologia gera mais valor quando transforma a maneira como as empresas trabalham e se organizam, nossa conversa começa com uma questão central:
Como redesenhar as organizações para um futuro em que pessoas e agentes de inteligência artificial trabalham de forma cada vez mais integrada?
É sobre isso que vamos conversar a seguir.
1. Gabriel, muito se fala de IA como ganho de produtividade. Na sua visão, onde está a transformação mais profunda que ela provoca nas organizações: na forma de executar o trabalho, na forma de decidir ou na forma de se organizar?
A transformação começa na forma de executar o trabalho, passa pela tomada de decisões e, no final, exige repensar a própria organização.
Durante muito tempo, utilizamos a tecnologia para melhorar processos existentes, automatizando etapas e aumentando a produtividade sem mudar significativamente a estrutura organizacional.
Com a IA generativa e, principalmente, os agentes de IA, entramos em uma nova fase. Esses sistemas já conseguem executar sequências de atividades, interagir com outros sistemas e tomar determinadas decisões.
Se simplesmente colocarmos IA sobre processos antigos, corremos o risco de fazer as mesmas coisas mais rapidamente, sem capturar todo o potencial da tecnologia.
A transformação precisa alcançar os processos, os papéis, as responsabilidades, as estruturas de decisão e o modelo operacional. Precisamos repensar como o trabalho é feito e como a empresa se organiza para gerar valor.

2. Se agentes de IA assumem cada vez mais tarefas, qual passa a ser a contribuição mais valiosa das pessoas dentro de uma empresa? Que competências você acredita que vão separar os profissionais que prosperam dos que ficam para trás?
À medida que os agentes assumirem atividades operacionais, repetitivas e analíticas, o diferencial humano estará cada vez mais na capacidade de definir objetivos, compreender contextos, exercer julgamento, lidar com ambiguidades e tomar decisões.
Algumas competências ganham importância: formular problemas e definir resultados, pensar criticamente, orquestrar agentes de IA, desenvolver a criatividade, construir relacionamentos e aprender de forma contínua.
Existe ainda uma competência decisiva: compreender o negócio. Quem conhece profundamente os clientes, os processos e os objetivos da empresa terá melhores condições de orientar a IA e transformar suas capacidades em resultados concretos.
O desafio será desenvolver pessoas que deixem de ser apenas executoras de atividades e passem a atuar cada vez mais como responsáveis por resultados, decisões e orquestração do trabalho.

3. Duas empresas com a mesma tecnologia podem ter resultados completamente diferentes com IA. O que você acredita que vai fazer uma organização ter mais resultados que outras daqui pra frente?
A principal diferença estará na capacidade de transformar tecnologia em uma nova forma de operar e gerar valor para o negócio.
O acesso aos modelos de IA tende a se tornar cada vez mais disseminado. Portanto, utilizar uma ferramenta ou desenvolver um agente, isoladamente, dificilmente será uma vantagem competitiva sustentável.
Uma empresa pode implementar dezenas de iniciativas de IA e obter resultados limitados se continuar trabalhando com processos fragmentados, estruturas em silos e decisões lentas.
Outra, utilizando tecnologias semelhantes, pode alcançar resultados muito diferentes ao redesenhar fluxos de trabalho de ponta a ponta, integrar dados e organizar equipes em torno de resultados concretos.
O importante é olhar para o resultado final, e não apenas para a eficiência de cada departamento.
A vantagem competitiva não estará simplesmente em ter mais IA, mas em construir uma organização capaz de transformar suas capacidades em melhores resultados para os clientes e para o negócio.

4. A chegada da IA costuma vir acompanhada de insegurança por parte das pessoas: medo de substituição, de perder relevância, de errar. Como um líder deve conduzir essa conversa com as equipes para que a IA seja vista como alavanca, e não como ameaça?
O primeiro passo é reconhecer que essa insegurança existe e não deve ser tratada como resistência irracional à tecnologia. Quando atividades realizadas há anos podem ser executadas de outra maneira, é natural que as pessoas tenham dúvidas sobre seu papel e seu futuro profissional.
O papel da liderança é conduzir essa transformação com transparência, responsabilidade e participação das equipes.
Precisamos explicar por que estamos adotando IA, quais problemas queremos resolver e como esperamos que o trabalho evolua.
Também devemos envolver as equipes no redesenho dos processos, investir em capacitação contínua e criar um ambiente em que as pessoas possam experimentar, aprender e apontar problemas.
É fundamental ser transparente sobre as mudanças que podem ocorrer. Muitas funções vão mudar, algumas atividades deixarão de existir e outras surgirão.
A responsabilidade da liderança é preparar a organização para essa realidade, criando condições para que as pessoas desenvolvam novas competências e encontrem maneiras de contribuir nesse novo contexto.

5. Se você tivesse que aconselhar um CEO que está começando agora a jornada de IA, qual seria o primeiro movimento: investir em tecnologia, preparar as pessoas ou redesenhar a organização? E qual erro você mais vê as empresas cometerem nesse início?
Eu começaria pelo negócio e pelo trabalho que precisa ser transformado e não pela tecnologia isoladamente.
O primeiro passo é identificar os principais fluxos de trabalho, entendendo seus custos, gargalos, retrabalhos, decisões e impactos na experiência do cliente.
A partir daí, a pergunta seria:
Se pudéssemos desenhar esse trabalho do zero, considerando as capacidades atuais e futuras da IA, como ele deveria funcionar?
Esse exercício permite identificar o que deve ser eliminado, simplificado, automatizado ou executado por agentes, e onde o julgamento humano continua sendo essencial.
Depois, precisamos redesenhar responsabilidades, preparar as pessoas, construir a arquitetura tecnológica necessária e estabelecer governança e mecanismos de controle. Também é importante testar as hipóteses e comprovar os resultados antes de ampliar a transformação.
Um erro comum é automatizar processos existentes sem questionar se eles ainda fazem sentido. Isso pode acelerar atividades desnecessárias e preservar os mesmos gargalos.
A transformação precisa envolver a liderança executiva, as áreas de negócio, tecnologia, pessoas, segurança e governança. Não é apenas um projeto de TI: é uma mudança no modelo de operação da empresa.
Minha recomendação para um CEO seria começar pelo valor que deseja gerar, redesenhar o trabalho para capturar esse valor e, então, combinar tecnologia, pessoas e governança para transformar esse desenho em realidade.

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